09/11/2019

EDUCAÇÃO EMOCIONAL

     Quando os pais podem iniciar o processo de educação emocional de seus filhos?

     Educar é um desafio enorme para os pais. Fala-se muito em como estimular a capacidade intelectual dos filhos. Além disso, muitos são os estudos e técnicas que abordam o comportamento infantil. Não é raro os pais sentirem-se preocupados com certas atitudes dos filhos, que acabam sendo chamadas de mau comportamento. Os pais muitas vezes não sabem como agir diante dessas crises e não olham para a situação como uma oportunidade de intimidade e orientação. A questão é que não se dá importância aos sentimentos que estão por trás deste comportamento indesejado.  Os pais desejam que seus filhos sejam obedientes e educados, que tenham responsabilidade e autonomia, mas acabam não sabendo como ajudá-los a identificarem e reconhecerem suas emoções, a ouvirem com empatia e legitimarem os sentimentos da criança, colocando limites e ajudando-a a encontrar soluções para o problema. Ao fazerem isso conscientemente, os pais estarão estimulando a inteligência emocional de seu filho. Este é o ponto de onde partiremos: a partir de qual idade é possível iniciar o processo de educação emocional nas crianças?

     Não há um consenso entre os estudiosos para esta questão. Ouso a afirmar que desde a gestação. Ainda no ventre o bebê reage aos estados emocionais da mãe, quando ela está tensa ou calma, por exemplo. Pais que desejam ter uma sólida relação com seus filhos devem preparar o terreno durante a gravidez. Este envolvimento dos pais com o bebê, mesmo antes do nascimento, é muito importante. Homens que interagem com a gravidez da companheira passam mais tempo com o bebê no colo e respondem mais ao seu choro. A comunicação emocional vai se estabelecendo e, quando a criança nasce, à medida que vai se familiarizando com o rosto do pai, sua voz, seu modo de andar, seu cheiro e seu modo de segurá-la, ela passa a associar a sua presença, assim como a da mãe, a conforto e segurança. Além disso, o bebê começa a perceber que pode afetar a maneira como seus pais lhe tratam, que, através de seu comportamento, pode influenciar outras pessoas.

     A interação emocional do bebê com os pais torna-se mais perceptível aos três meses, quando os olhos do recém-nascido "se iluminam" e começam a olhar realmente para os pais  e acompanhar o olhar deles. Neste momento, através da observação e imitação, o bebê começa aprender sobre a interpretação e manifestação das emoções. É a hora dos pais iniciarem o processo de treinamento da emoção de seus filhos.

     Nesta fase, pais e bebê estabelecem trocas de informações emocionais. Os adultos adotam uma linguagem com voz mais aguda e lenta, cheia de repetições e com expressões faciais exageradas para se comunicarem com a criança. Os bebês, em geral, se interessam e prestam mais atenção quando ouvem os pais se comunicando dessa maneira. Outra forma de comunicação ocorre nas conversas sem palavras, face a face com a criança, um fazendo careta para o outro. O bebê coloca a língua para fora e a mãe o imita, por exemplo. Essas conversas imitativas tornam-se brincadeiras que cativam o bebê. A criança percebe que a pessoa que está se comunicando está atenta a ela e reagindo aos seus sentimentos. Ela se sente compreendida por outra pessoa.

     O estado emocional do adulto que se comunica com o bebê pode até determinar como o cérebro da criança irá processar um evento emocional como experiência negativa ou positiva. Pais que não respondem às expressões da criança ou só tem reações negativas acabam influenciando o humor do bebê, que pode ficar mais retraído e menos responsivo. O bebê de uma mãe deprimida tende a espelhar a tristeza, a falta de energia, a raiva e a irritabilidade de sua mãe. Até mesmo o desenvolvimento da criança começa a ser afetado.

     Os pais precisam prestar atenção aos estados emocionais de seu bebê e a reagirem a eles. Se o bebê perder o interesse em uma brincadeira, após um período de interação, dê-lhe um pouco de sossego. Caso a criança fique irritada após várias pessoas a pegarem no colo e tentarem falar com ela, leve-a para um lugar tranquilo onde ela possa se acalmar.

     Na tentativa de compreender as emoções do bebê, os pais devem fazer o que puderam para ajudá-lo. Não há receitas para isso. Este é um processo de tentativa e erro, em que pais e filho vão buscando estratégias mais adequadas  ao temperamento do bebê. Algumas técnicas podem funcionar, como: diminuir a luz, embalar o bebê, falar baixinho, passear com ele, colocar uma música tranquila, cantar músicas de ninar, fazer massagem.

     Quando os pais se mostram sensíveis aos estados de ânimo do bebê, como ao perceberem a necessidade de passar de uma atividade altamente excitante a uma mais tranquila, estão estimulando a inteligência emocional, ou seja, estão ajudando a criança a aprender a se acalmar e a regular seus estados fisiológicos. Além disso, o bebê percebe que ao expressar uma emoção negativa forte, como o choro, seus pais reagirão. Aprende, ainda, à medida que vai crescendo, que é possível acalmar-se depois de uma forte emoção, sendo capaz de encontrar formas de fazer isso sozinho, sem a ajuda dos pais, o que é muito importante para o seu bem-estar emocional.

 

Gilson Carraro, escritor, educador e coach de pais e filhos.